
A MUSICOLOGIA DA CAPOEIRA: SIGNIFICADOS E EXPRESSÕES
Maria Eduarda Lemos da Silva Pessoa
Licenciatura em Educação Física na Faculdade Social da Bahia
Luis Vitor Castro Júnior
Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana
Professor da Faculdade Social da Bahia
Doutorando da PUC/SP no programa de História
Nas músicas de capoeira observar-se também a metonímia8, por exemplo: “Eu conheci o mestre bimba, o mestre pastinha e também seu maré, e ele falou capoeira pra home, minino e mulhê, é, é, pra home, minino e mulhê...” Em vez de utilizar o nome Manoel dos Reis Machado, o apelido toma força para representar a dinâmica cultural ancestral na capoeira. Sendo assim, o nome atribuído ao mestre se constitui numa potência, pois os seus saberes vão sendo revigorados, ultrapassando a figura humana, para se constituir enquanto mito, capaz de estabelecer a ancestralidade nos entre-tempos.
Voltando às letras de capoeira de um português cada vez mais hibridizado com as palavras de origem bantu e indígena. Encontramos nas mesmas, fortes incidências de uma fala cheia de significados, onde através desta linguagem, eram estabelecidos significados para serem compreendidos pelos os incorporados a essa “tribo capoeira”. Facilmente acontecia o “ar” de duplo sentido nas palavras. Podia ser de sotaque, o aviso de que alguém estava chegando para reprimir (a polícia ), ou até quando se cortejava uma moça. A produção dessa poesia a princípio acontecia nos engenhos e nos canaviais com suas cantigas de escravos, em seguida na vadiação das praças públicas até chegar nas academias. Consideramos, a música a partir do capoeirista, é como se fosse a água para o peixe. Ela vai dá pista como ele deve agir e vai determinar o ritmo do jogo, deixando livre para dá a “volta ao mundo”. As músicas da capoeira são divididas em ladainha (começo) e o corrido (refrão). A ladainha corresponde ao canto inicial, para o capoeirista, é um momento sagrado no qual são evocadas entidades míticas–religiosas exigindo dele respeito e atenção Na ladainha abaixo, “o ritmo é lento, sempre acompanhado pelo berimbau, tocando angola ou são-bento-grande (lento)9:
Riachão tava cantando, Na cidade de Açu, Quando apareceu um nêgo, Como a espece de ôrubú, Tinha casaca de sola, Tinha calça de couro cru, Beiços grossos redrobado, da grossura de um chinelo, Tinha o ôlho incravado, Outro ôlho era amarelo, Convidô Riachão, Pra cantá o martelo, Riachão arrespondeu, Não canto cum nêgo desconhecido, Êle pode sê um escravo, Ande por aqui fugido, Eu sô livre como um vento, Tenho minha linguagem nobre, Naci dentro da pobreza, Não naci na raça pobre, Que idade tem você, Que conheceu meu avô, Você tá parecendo, Que é mais môço do que eu, Iê água de bebê... Versos do domino público.
A ladainha pode ser considerada um louvor dos feitos e das qualidades de um capoeirista lendário, mas pode ainda conter um elogio ou provocação irônica ao parceiro, uma louvação aos presentes, um agradecimento à hospitalidade dos donos da casa ou, relato e comentário de algum acontecimento. As ladainhas geralmente contem lições de vida e transmitem a filosofia da capoeira, servindo de inspiração para o jogo, mas ela também pode se configura num certo proselitismo que reforça a discriminação racial e de gênero. No CD da trilha sonora do filme Dança de Guerra Mestre Bimba canta a seguinte ladainha:
Minino quem foi teu mestre, Minino quem foi teu mestre, Que lhe deu essa lição, Fui discípulo que aprende, Qui in mestre eu dei lição, O mestre qui mim insinô, ta no engenho da Conceição, A ele devo dinheiro, saúde e obrigação, O segredo de São Cosme, Mas quem sabe é São Damião.
A ladainha reverencia a figura do mestre como sujeito importante no processo de transmissão dos saberes. Segundo Rego essa cantiga pode ser considerada como geográfica e de devoção. As geográficas consistem em “cantigas localizando vilas, cidades, estados...10”, ou seja, no momento em que fala “... no Engenho da Conceição”, ele está se referindo a um determinado território. Já nas cantigas de devoção, retratam algum Santo no qual os capoeiristas têm devoção. Rego afirma que nas músicas de capoeira “... têm como invocação São Cosme e São Damião, santos popularíssimos na Bahia...11”. Ao tratar sobre as cantigas onde o negro é estereotipado e inferiorizado, como canções de escárnio e mal-dizer. “Se referem à cor negra, como símbolo do desprezível, do malefício, do diabo, partindo dessa premissa, para toda espécie de escárnio12”. Como por exemplo: “Na minha casa veio um home, das espece dos urubus, Tinha camisa de sola, Paletó de couro cru, Faca de ponta de ponta no cinto, Rabo cumprido no cu, O beiço grosso e virado, Como sola de chinelo, Um zóio bem encarnado, Outro bastante amarelo 13”
Voltando às letras de capoeira de um português cada vez mais hibridizado com as palavras de origem bantu e indígena. Encontramos nas mesmas, fortes incidências de uma fala cheia de significados, onde através desta linguagem, eram estabelecidos significados para serem compreendidos pelos os incorporados a essa “tribo capoeira”. Facilmente acontecia o “ar” de duplo sentido nas palavras. Podia ser de sotaque, o aviso de que alguém estava chegando para reprimir (a polícia ), ou até quando se cortejava uma moça. A produção dessa poesia a princípio acontecia nos engenhos e nos canaviais com suas cantigas de escravos, em seguida na vadiação das praças públicas até chegar nas academias. Consideramos, a música a partir do capoeirista, é como se fosse a água para o peixe. Ela vai dá pista como ele deve agir e vai determinar o ritmo do jogo, deixando livre para dá a “volta ao mundo”. As músicas da capoeira são divididas em ladainha (começo) e o corrido (refrão). A ladainha corresponde ao canto inicial, para o capoeirista, é um momento sagrado no qual são evocadas entidades míticas–religiosas exigindo dele respeito e atenção Na ladainha abaixo, “o ritmo é lento, sempre acompanhado pelo berimbau, tocando angola ou são-bento-grande (lento)9:
Riachão tava cantando, Na cidade de Açu, Quando apareceu um nêgo, Como a espece de ôrubú, Tinha casaca de sola, Tinha calça de couro cru, Beiços grossos redrobado, da grossura de um chinelo, Tinha o ôlho incravado, Outro ôlho era amarelo, Convidô Riachão, Pra cantá o martelo, Riachão arrespondeu, Não canto cum nêgo desconhecido, Êle pode sê um escravo, Ande por aqui fugido, Eu sô livre como um vento, Tenho minha linguagem nobre, Naci dentro da pobreza, Não naci na raça pobre, Que idade tem você, Que conheceu meu avô, Você tá parecendo, Que é mais môço do que eu, Iê água de bebê... Versos do domino público.
A ladainha pode ser considerada um louvor dos feitos e das qualidades de um capoeirista lendário, mas pode ainda conter um elogio ou provocação irônica ao parceiro, uma louvação aos presentes, um agradecimento à hospitalidade dos donos da casa ou, relato e comentário de algum acontecimento. As ladainhas geralmente contem lições de vida e transmitem a filosofia da capoeira, servindo de inspiração para o jogo, mas ela também pode se configura num certo proselitismo que reforça a discriminação racial e de gênero. No CD da trilha sonora do filme Dança de Guerra Mestre Bimba canta a seguinte ladainha:
Minino quem foi teu mestre, Minino quem foi teu mestre, Que lhe deu essa lição, Fui discípulo que aprende, Qui in mestre eu dei lição, O mestre qui mim insinô, ta no engenho da Conceição, A ele devo dinheiro, saúde e obrigação, O segredo de São Cosme, Mas quem sabe é São Damião.
A ladainha reverencia a figura do mestre como sujeito importante no processo de transmissão dos saberes. Segundo Rego essa cantiga pode ser considerada como geográfica e de devoção. As geográficas consistem em “cantigas localizando vilas, cidades, estados...10”, ou seja, no momento em que fala “... no Engenho da Conceição”, ele está se referindo a um determinado território. Já nas cantigas de devoção, retratam algum Santo no qual os capoeiristas têm devoção. Rego afirma que nas músicas de capoeira “... têm como invocação São Cosme e São Damião, santos popularíssimos na Bahia...11”. Ao tratar sobre as cantigas onde o negro é estereotipado e inferiorizado, como canções de escárnio e mal-dizer. “Se referem à cor negra, como símbolo do desprezível, do malefício, do diabo, partindo dessa premissa, para toda espécie de escárnio12”. Como por exemplo: “Na minha casa veio um home, das espece dos urubus, Tinha camisa de sola, Paletó de couro cru, Faca de ponta de ponta no cinto, Rabo cumprido no cu, O beiço grosso e virado, Como sola de chinelo, Um zóio bem encarnado, Outro bastante amarelo 13”
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