Manoel Bispo dos SantosNascimento: 25/12/1937, Santo Amaro da PurificaçãoProfissão: ArtistaProjeto: Memórias dos BrasileirosP/1 – E lá podia jogar?R – Lá em Salvador já podia jogar! Já estava mais civilizado, não é?
P/1 – Mas porque a pessoa era presa quando jogava capoeira?R – Porque era proibido, Capoeira era de malandro. Quem jogava Capoeira era malandro. Não existia e
a Capoeira era uma luta, chamava Batuque, era a Capoeira. Essa Capoeira veio da Angola e meu pai tomava conta de engenho porque lá era mais, a minha mãe era bem pretinha e o meu pai era bem claro, e meu pai tomava conta do engenho. Aí os negos iam para a Senzala. Em Santo Amaro tem 15 engenhos, fora os de Cachoeira que são mais 15, são 30 engenhos na região do Recôncavo Baiano. E é tanto como eu falei, que eu fiz essa música: “Não maltrata esse negro não, esse negro foi quem me cuidou, de calça lascada e camisa furada foi o meu professor! Não bate nesse negro não, não maltrate não, esse negro foi quem me ajudou, de calça lascada e camisa furada foi o meu professor!”. E Caiçara jogando, na verdade é isso aí. Aí meu irmão me levou para uma roda de Capoeira em Campo Grande, Salvador e aí Caiçara, um dos grandes mestres, Bimba Caiçara, aquela roda de Capoeira bonita, aí eu cheguei para jogar a minha malícia que eu aprendi a jogar com Besouro Preto, o mais valente do mundo, na época dele. Aí eu fui jogar essa Capoeira lá. Quando a roda formou, o Caiçara foi brincar comigo, brincar pensando que eu não sabia, pensando que eu sou cigarra que eu não canto e levo o dia, Sabiá do Mato Grosso também canta, passa longe do bico dele, vontade dele também consola. Aí então ele deu um vacilo e eu dei uma rasteira nele, aí ele caiu e a turma deu risada. Mas meu irmão era polícia e polícia nessa época era respeitado. Hoje em dia que não tem muito valor, que tem que sair desarmado porque se sair armado o ladrão mata, então quer dizer, é uma realidade, é um mundo assim que nós estamos. Ele me tapeou e me chamou para a roda de novo, aí quando eu fui me deu uma cabeçada desconcertante, mas não me deu de maldade, mas me tirou fora da roda e disse: “Roupa de homem na dá em menino.” E aí me abraçou e disse: “Você vai ser um grande mestre de capoeira!”, falou com perdão, e meu irmão, por sinal, faleceu agora, ele tinha 54 anos em São Paulo, onde eu tenho os meus afilhados lá em São Paulo, que é filho dele, mora na Vila Maria, tem outra menina que mora em Guarulhos, que eu batizei lá em São Paulo a época que eu estava lá. E eu me sinto muito orgulhoso de conhecer São Paulo, mas vamos voltar aos meus 15 anos, porque eu estava nos 15 anos. Quando eu fiz 18 anos e era 20, na realidade, eu fui para o exército. Essa história é muito engraçada! Aí eu fui para o exército só que o exército eu tirei grupo A porque eu era muito forte. Aí fui para o exército e do Exército, e no grupo A – apto a servir. Mas o exército não estava precisando e me mandou como voluntário para a base, aí prestei para a base aérea. Fiquei um tempo na base e na base me perguntaram: “Para onde você quer ir?” “Quero ir para São Paulo porque tenho um irmão lá!”, aí me botaram num avião de carga, Constellation e aí eu fui para São Paulo.
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