
A INVENÇÃO DO COTIDIANO NA METRÓPOLE: Sociabilidade e Lazer em São
Paulo, 1900-1950
Margareth Rago - UNICAMP
................................À noite, seus pais partiam para o baile dos adultos. Já na adolescência, este era
ainda o único carnaval que sua família permitia que freqüentasse, longe das serpentinas e das batalhas de confetes dos imigrantes italianos e espanhóis, que se reuniam no Brás 74, e como é de se supor, bem mais longe ainda dos negros, expulsos para fora do centro urbano. ImpedidAos pela repressão policial de se manifestar na cidade, a população negra buscava as ruas do município de Pirapora do Bom Jesus, onde, até o final dos anos vinte, reunia-se um enorme contingente de pessoas, procedentes de várias cidades e estados, entre as quais os mais importantes sambistas de São Paulo, Dionísio Barbosa, fundador do primeiro cordão carnavalesco de São Paulo e Madrinha Eunice, fundadora da “Escola de Samba do Lavapés”, em 1937. Filho de outro sambista, Dionísio recorda:
Meu pai tocava no Pirapora. Tocava barimbau(sic), tocava nos dentes, só quem tinha dente podia tocar ...Era fantástico...A gente tocava...era o samba antigo, de bumbo, não é o de hoje.75
Mal vistos pelas elites e reprimidos pela polícia, fora do período de Carnaval, os sambistas organizavam “rodas de samba” em suas próprias casas. Nos terreiros existentes nos cortiços, muitas vezes transformados em espaços de cultos religiosos, de umbanda, em meio aos familiares, vizinhos e amigos, os negros dançavam o jongo ou o samba de roda. Nas casas das “tias”, como a da “Tia Olympia”, na rua Anhangüera, no terreiro do “Zé Soldado”, no Jabaquara, ou na casa de Madrinha Eunice, no bairro do Lavapés, já nos anos trinta, desenvolviam-se formas espontâneas de associação e solidarização, de onde esses grupos profundamente estigmatizados e oprimidos podiam extrair ludicamente a energia necessária para enfrentar as vicissitudes da vida cotidiana, em um mundo tão adverso, constituído, na grande maioria, pelos brancos e por seus preconceitos. 76
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