
A CONSTRUÇÃO DAS NARRATIVAS IDENTITÁRIAS DA CAPOEIRA
Juliana Azevedo de Almeida 7 - UFES
Otávio G. Tavares da Silva – Doutor8 – UFES
.............Em outro trecho de um artigo da RBCE, observamos como o articulista tenta preservar a tradição criando um mito sacro, essencialista e atemporal:
Neste sentido, a roda constitui-se em um lugar do sagrado, onde o capoeirista está recebendo toda energia dos seus ancestrais que vieram nessa luta ímpar pela liberdade. O sagrado fica evidente no respeito que o praticante deve ter em relação às “regras” instituídas ao longo do tempo pelos seus antecessores, à incorporação desses valores na sua vida, à sua responsabilidade de preservar os rituais e sua dedicação de educar [...] (CASTRO JR., 2004, p.153).
Comparando-o com um fragmento do diário de campo, percebemos como alguns “nativos” realmente consideram a roda como um momento sagrado: “A roda iniciou com um ritmo médio de São Bento Grande de Angola. Agacharam-se ao pé do berimbau um rapaz e uma moça... A moça parecia fazer uma prece, o rapaz apenas esperava o sinal do berimbau para sair para o jogo” (diário de campo do dia 09 de abril de 2007). Entretanto, e ao contrário do que Castro Jr. (2004) evidencia, o fato de considerar a roda como lugar sagrado, nem sempre estabelece a incorporação dos valores e regras “ancestrais” da capoeira (ou do grupo) na vida daqueles que a praticam. Talvez o articulista estivesse se referindo ao que acontece no seu grupo de capoeira19, utilizando-se, novamente do ferramental acadêmico para legitimar ideologias e mitos. Nesse sentido, observemos o trecho seguinte:
Disse a ele [ao professor] que reparei que os comportamentos ali eram bem informais, no sentido de que não via a preocupação de ninguém em cumprimentar o professor ao chegar no treino ou dar satisfações ao chegar atrasado. Ele me disse que isso é normal, não incomoda, mas reclamou de algumas atitudes como: “Você viu na roda da sexta retrasada? Um cara, que não sei quem é, chegou aqui na porta e o estagiário (um aluno graduado do grupo)
chamou ele pra vir pra roda (com gesto de mão chamando). O cara chegou, não falou nada comigo, quando vi, ele já tava no atabaque!!! Isso não pode! É falta de educação! Vê se eu vou chegar na roda do cara e nem falar com o professor?!!. Mas eu disse ao professor: “Poxa, mas o aluno que o chamou! Por ele ser graduado o cara deve ter se sentido à vontade pra entrar.” O professor disse: “Sim! O estagiário é que tava errado! Depois, chamei ele num canto e chamei a atenção dele!” (diário de campo do dia 28 de março de 2007).
O professor acima citado não aprovou o comportamento desrespeitoso de seu aluno (estagiário) e do rapaz que chegou à roda sem se apresentar. Isso demonstra que os rituais da roda de capoeira em si, mesmo sendo vistos por alguns como “sagrados”, não podem educar ou inc ulcar valores à vida dos praticantes da forma que Castro Jr. (2004) nos apresenta. Se analisássemos essa roda de capoeira pelo olhar desse articulista poderíamos dizer que a mesma não é “sagrada” e que “os ancestrais não estão lhe enviando nenhuma energia”, já que o respeito, naquele momento não se fez tradição
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