
CRÔNICAS
17/08/2005 1 comentário(s)
Capoeira: Da Negritude e das Negritudes
Crônica de autoria do Prof. Dr. Sérgio Luiz de Souza Vieira, mestre de Capoeira e Presidente da Federação Internacional de Capoeira (FICA), com sede em São Paulo
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Jornal do Capoeira - Edição 43: 15 a 21 de Agosto de 2005
EDIÇÃO ESPECIAL- CAPOEIRA & NEGRITUDE
Sergio Luiz de Souza Vieira
São Paulo, Agosto/2005
Foi com muita alegria que recebi, do Miltinho Astronauta, o convite para escrever sobre a questão da negritude no Jornal do Capoeira, instrumento de informação ao qual reputamos grande valor e, que por tal condição, se encontra com link direto no portal da Federação Internacional de Capoeira: http://www.capoeira-fica.org/ .
Vamos, então, adentrar ao tema, a partir da ótica do mais antigo segmento da Capoeira: o desportivo.
Ao analisarmos o vocábulo "negritude" observaremos que se trata de uma conceituação global dada ao conjunto de valores das diferentes etnias africanas.
A partir desta situação nos é lícito esclarecer duas situações distintas. Primeiramente, que não poderemos jamais utilizar a expressão "cultura africana", muito usual no Brasil, principalmente entre capoeiristas e afro-eugênicos, uma vez que a África é constituída de uma ampla diversidade de culturas, em alguns casos, inimigas umas das outras, e desta forma, não poderão ser inseridas em um mesmo grupo. Uma segunda situação a ser observada é que há uma diferenciação entre "cultura negra" e "cultura do negro no Brasil", que por sua vez está orientada para a ressignificação cultural, voltada para a afirmação de uma identidade, a exemplo de indumentárias, penteados, músicas, comportamentos, todavia surgidas na modernidade e dissociadas de seus sentidos originais, a exemplo da Capoeira Angola que passou a incorporar práticas da Nigéria.
Num estudo mais aprofundado sobre estas temáticas, notamos que as relações que se estabeleceram entre Brasil, África e Europa, no que nos é pertinente nesta temática, nos apontou para dois processos distintos: o primeiro, a "desterritorialização cultural", na qual as manifestações culturais africanas foram transferidas de um espaço para outro espaço, assimilando novas dinâmicas culturais, não existindo assim, relação necessária entre etnia, espaço e cultura. A outra situação é a da "destemporialização cultural", em que constatamos que os tempos das dinâmicas culturais territorializadas e desterritorializadas sofreram rupturas, de tal forma que, nas que se mantiveram nos mesmos territórios houve uma tendência a se transformarem gradativamente com o passar do tempo, todavia, nas que se inseriram em outros territórios passaram a ter como referência a época da desterritorialização, uma vez que necessitavam ser preservadas. É exatamente por esta situação que muitas práticas do Candomblé no Brasil, já foram esquecidas na África, assim como, encontramos atualmente na Nigéria, nas terras originais dos orixás, a "Sociedade das Pessoas Chiques", que é uma associação com forte atuação social, por sua vez promove disputados concursos para se saber quem se veste melhor, a partir dos modelos europeus, mais precisamente, dos padrões franceses.
Tais situações colocam a nós, capoeiristas, diante de algumas complexidades, a saber: A Capoeira é brasileira ou africana? É importada da África ou se trata de uma invenção de africanos no Brasil? Qual é o legado dos primeiros portugueses capoeiristas citados nas mais antigas crônicas sobre a Capoeira? E a questão das influências portuguesas na Capoeira, tais como os cânticos, as músicas, alguns instrumentos musicais, a religiosidade católica e até as palavras: mestre e contramestre? Houve influência das artes marciais orientais na Capoeira, uma vez que muitos chineses aportaram na África e eram tripulantes das embarcações portuguesas? Quais foram os legados chineses de 1400 a 1800, na rota Macau-África-Portugal-Brasil? O que de africano ainda existe na Capoeira? Qual é, exatamente, a negritude existente na Capoeira? - É fictícia? É real? É inventada? É verdadeira? É legítima? É ressignificada?...
Cada uma destas perguntas, sem dúvida, nos envolveria em anos de pesquisas e reflexões, algumas infindáveis.
Não há, entretanto, como se negar a participação da matriz étnica africana no processo de inserção histórica da Capoeira no Brasil, assim como também não poderemos negar as influências da matriz portuguesa neste mesmo enfoque, não se desconsiderando a hipótese das possíveis influências indígenas e chinesas, que merecerão estudos futuros, todavia há que se entender que a negritude da Capoeira é o resultado de misturas pois no universo da Capoeira misturam-se as almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas, misturam-se, enfim as vidas, e assim, pessoas e as coisas misturadas, saem cada qual de sua esfera e se misturam: o que é o contrato e a troca, e também o ato que toca o humano.
Há, desta forma, um legado cultural, denominado Capoeira que foi formado inequivocamente, tanto pela "negritude" quanto pela "branquitude" que também se misturou. Desta forma, realmente poderemos afirmar que "a Capoeira é da nossa cor".
Temos, no entanto, que também considerar que da forma como a concebemos, "o legado cultural da Capoeira se encontra em situação de risco", uma vez que, em decorrência das próprias dinâmicas culturais, cada pessoa que a leciona, exercerá sobre a Capoeira duas influências, a saber: "patriarcalismo" e "patrimonialismo". Na primeira teremos o exercício do poder de quem leciona, determinando as interdições e as concessões do que se poderá fazer naquele espaço, ou seja, o que se permitirá ou não na aula de Capoeira. A segunda, por sua vez, se reporta ao conjunto de representações sociais que estarão marcadas naquele espaço, ou seja, a identidade do dirigente, a qual se reproduzirá como identidade do grupo.
Desta forma, a Capoeira se fragmenta a cada instante, o que se verifica ao observarmos que a forma de se lecionar de um mestre é diferente da de seus discípulos, assim como também são diferentes as formas de se ensinar a Capoeira entre todos os formados de um mesmo mestre. Ou seja, na modernidade já não poderemos mais nos referir à Capoeira como um "patrimônio cultural do povo brasileiro" mas sim como um "patrimônio cultural de quem a leciona", o que nos levará a "milhares de formas de se fazer Capoeira" e a outros "milhares de entendimentos diferenciados sobre as negritudes na Capoeira", fato este que se agrava a cada minuto, uma vez que a Capoeira está difundida em todos os continentes e em quase todos os países, desterritorializando-se, e destemporializando-se constantemente, portanto, absorvendo assim, valores em cada localidade em que se encontra.
Onde está a negritude em tudo isto?... Boa pergunta!...
Onde está o legado cultural da Capoeira?... Outra boa pergunta...
Partindo desta situação real, nos é pertinente uma reflexão sobre o estabelecimento de mecanismos de proteções sobre o que ainda nos resta da Capoeira, todavia, para isto se faz necessário a realização de simpósios e congressos técnicos internacionais, definindo nomenclaturas de movimentos, cânticos, cantigas, toques de instrumentos musicais, parâmetros de jogos, codificações filosóficas, fundamentos de diferentes tipos de jogos e indumentárias, bem como a estruturação de mecanismos eficientes de reprodução sistematizada de tais saberes, competências, habilidades, rituais, fundamentos e tradições, as quais não podem deixar de ser acompanhadas de rigorosos critérios de certificação internacional de quem está habilitado ou não ao seu ensino.
Cremos, sinceramente, que não haverá outra saída, para Capoeira e isto, deverá ser feito com a máxima urgência, a fim de podermos resgatar, preservar e difundir o pouco que ainda nos sobrou desta herança cultural e, conseqüentemente, das negritudes e branquitudes que se encontraram presentes na roda de Capoeira.
Para isto, há que se conversar. Há que se despir das vaidades. Há que se "morrer os "eus"" para vermos "renascer a "nossa" Capoeira", pois quanto mais profundamente nos relacionarmos com a Capoeira e com as coisas da Capoeira, mais aparecerão as necessidades sagradas de preservações, pois em tudo isto habitam valores, moram espíritos, bons e maus, e delineia-se a paisagem humana... Ela, a Capoeira, é parte de nós mesmos. Não é apenas uma coisa que se utiliza e se joga fora. A Capoeira transcende as pessoas e se torna um sacramento de nossa vida abençoada ou maldita... Toda ela é um sacramento ou pode tornar-se, dependendo de nós e de nosso olhar. Se a olharmos humanamente, relacionando-nos em paz, deixando com que ela se torne igualmente importante para todos, sem egoísmos e se discórdias, realmente conseguiremos ser dignos da herança que recebemos de nossos antepassados e a estaremos difundindo às futuras gerações, caso contrário, falharemos, por não sermos dignos, da missão sacramental que recebemos daqueles que no passado dedicaram suas vidas à nossa geração.
É exatamente isto o que acreditamos. É exatamente isto o que rezamos. É exatamente isto o que nos move e nos alimenta. É exatamente este o nosso Axé. E é esta a negritude que militamos.
Prof. Sergio Luiz de Souza Vieira - Ph.D.
Presidente da Federação Internacional de Capoeira
profsergiovieira@gmail.com - capoeira.fica@gmail.com
17/08/2005 1 comentário(s)
Capoeira: Da Negritude e das Negritudes
Crônica de autoria do Prof. Dr. Sérgio Luiz de Souza Vieira, mestre de Capoeira e Presidente da Federação Internacional de Capoeira (FICA), com sede em São Paulo
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Jornal do Capoeira - Edição 43: 15 a 21 de Agosto de 2005
EDIÇÃO ESPECIAL- CAPOEIRA & NEGRITUDE
Sergio Luiz de Souza Vieira
São Paulo, Agosto/2005
Foi com muita alegria que recebi, do Miltinho Astronauta, o convite para escrever sobre a questão da negritude no Jornal do Capoeira, instrumento de informação ao qual reputamos grande valor e, que por tal condição, se encontra com link direto no portal da Federação Internacional de Capoeira: http://www.capoeira-fica.org/ .
Vamos, então, adentrar ao tema, a partir da ótica do mais antigo segmento da Capoeira: o desportivo.
Ao analisarmos o vocábulo "negritude" observaremos que se trata de uma conceituação global dada ao conjunto de valores das diferentes etnias africanas.
A partir desta situação nos é lícito esclarecer duas situações distintas. Primeiramente, que não poderemos jamais utilizar a expressão "cultura africana", muito usual no Brasil, principalmente entre capoeiristas e afro-eugênicos, uma vez que a África é constituída de uma ampla diversidade de culturas, em alguns casos, inimigas umas das outras, e desta forma, não poderão ser inseridas em um mesmo grupo. Uma segunda situação a ser observada é que há uma diferenciação entre "cultura negra" e "cultura do negro no Brasil", que por sua vez está orientada para a ressignificação cultural, voltada para a afirmação de uma identidade, a exemplo de indumentárias, penteados, músicas, comportamentos, todavia surgidas na modernidade e dissociadas de seus sentidos originais, a exemplo da Capoeira Angola que passou a incorporar práticas da Nigéria.
Num estudo mais aprofundado sobre estas temáticas, notamos que as relações que se estabeleceram entre Brasil, África e Europa, no que nos é pertinente nesta temática, nos apontou para dois processos distintos: o primeiro, a "desterritorialização cultural", na qual as manifestações culturais africanas foram transferidas de um espaço para outro espaço, assimilando novas dinâmicas culturais, não existindo assim, relação necessária entre etnia, espaço e cultura. A outra situação é a da "destemporialização cultural", em que constatamos que os tempos das dinâmicas culturais territorializadas e desterritorializadas sofreram rupturas, de tal forma que, nas que se mantiveram nos mesmos territórios houve uma tendência a se transformarem gradativamente com o passar do tempo, todavia, nas que se inseriram em outros territórios passaram a ter como referência a época da desterritorialização, uma vez que necessitavam ser preservadas. É exatamente por esta situação que muitas práticas do Candomblé no Brasil, já foram esquecidas na África, assim como, encontramos atualmente na Nigéria, nas terras originais dos orixás, a "Sociedade das Pessoas Chiques", que é uma associação com forte atuação social, por sua vez promove disputados concursos para se saber quem se veste melhor, a partir dos modelos europeus, mais precisamente, dos padrões franceses.
Tais situações colocam a nós, capoeiristas, diante de algumas complexidades, a saber: A Capoeira é brasileira ou africana? É importada da África ou se trata de uma invenção de africanos no Brasil? Qual é o legado dos primeiros portugueses capoeiristas citados nas mais antigas crônicas sobre a Capoeira? E a questão das influências portuguesas na Capoeira, tais como os cânticos, as músicas, alguns instrumentos musicais, a religiosidade católica e até as palavras: mestre e contramestre? Houve influência das artes marciais orientais na Capoeira, uma vez que muitos chineses aportaram na África e eram tripulantes das embarcações portuguesas? Quais foram os legados chineses de 1400 a 1800, na rota Macau-África-Portugal-Brasil? O que de africano ainda existe na Capoeira? Qual é, exatamente, a negritude existente na Capoeira? - É fictícia? É real? É inventada? É verdadeira? É legítima? É ressignificada?...
Cada uma destas perguntas, sem dúvida, nos envolveria em anos de pesquisas e reflexões, algumas infindáveis.
Não há, entretanto, como se negar a participação da matriz étnica africana no processo de inserção histórica da Capoeira no Brasil, assim como também não poderemos negar as influências da matriz portuguesa neste mesmo enfoque, não se desconsiderando a hipótese das possíveis influências indígenas e chinesas, que merecerão estudos futuros, todavia há que se entender que a negritude da Capoeira é o resultado de misturas pois no universo da Capoeira misturam-se as almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas, misturam-se, enfim as vidas, e assim, pessoas e as coisas misturadas, saem cada qual de sua esfera e se misturam: o que é o contrato e a troca, e também o ato que toca o humano.
Há, desta forma, um legado cultural, denominado Capoeira que foi formado inequivocamente, tanto pela "negritude" quanto pela "branquitude" que também se misturou. Desta forma, realmente poderemos afirmar que "a Capoeira é da nossa cor".
Temos, no entanto, que também considerar que da forma como a concebemos, "o legado cultural da Capoeira se encontra em situação de risco", uma vez que, em decorrência das próprias dinâmicas culturais, cada pessoa que a leciona, exercerá sobre a Capoeira duas influências, a saber: "patriarcalismo" e "patrimonialismo". Na primeira teremos o exercício do poder de quem leciona, determinando as interdições e as concessões do que se poderá fazer naquele espaço, ou seja, o que se permitirá ou não na aula de Capoeira. A segunda, por sua vez, se reporta ao conjunto de representações sociais que estarão marcadas naquele espaço, ou seja, a identidade do dirigente, a qual se reproduzirá como identidade do grupo.
Desta forma, a Capoeira se fragmenta a cada instante, o que se verifica ao observarmos que a forma de se lecionar de um mestre é diferente da de seus discípulos, assim como também são diferentes as formas de se ensinar a Capoeira entre todos os formados de um mesmo mestre. Ou seja, na modernidade já não poderemos mais nos referir à Capoeira como um "patrimônio cultural do povo brasileiro" mas sim como um "patrimônio cultural de quem a leciona", o que nos levará a "milhares de formas de se fazer Capoeira" e a outros "milhares de entendimentos diferenciados sobre as negritudes na Capoeira", fato este que se agrava a cada minuto, uma vez que a Capoeira está difundida em todos os continentes e em quase todos os países, desterritorializando-se, e destemporializando-se constantemente, portanto, absorvendo assim, valores em cada localidade em que se encontra.
Onde está a negritude em tudo isto?... Boa pergunta!...
Onde está o legado cultural da Capoeira?... Outra boa pergunta...
Partindo desta situação real, nos é pertinente uma reflexão sobre o estabelecimento de mecanismos de proteções sobre o que ainda nos resta da Capoeira, todavia, para isto se faz necessário a realização de simpósios e congressos técnicos internacionais, definindo nomenclaturas de movimentos, cânticos, cantigas, toques de instrumentos musicais, parâmetros de jogos, codificações filosóficas, fundamentos de diferentes tipos de jogos e indumentárias, bem como a estruturação de mecanismos eficientes de reprodução sistematizada de tais saberes, competências, habilidades, rituais, fundamentos e tradições, as quais não podem deixar de ser acompanhadas de rigorosos critérios de certificação internacional de quem está habilitado ou não ao seu ensino.
Cremos, sinceramente, que não haverá outra saída, para Capoeira e isto, deverá ser feito com a máxima urgência, a fim de podermos resgatar, preservar e difundir o pouco que ainda nos sobrou desta herança cultural e, conseqüentemente, das negritudes e branquitudes que se encontraram presentes na roda de Capoeira.
Para isto, há que se conversar. Há que se despir das vaidades. Há que se "morrer os "eus"" para vermos "renascer a "nossa" Capoeira", pois quanto mais profundamente nos relacionarmos com a Capoeira e com as coisas da Capoeira, mais aparecerão as necessidades sagradas de preservações, pois em tudo isto habitam valores, moram espíritos, bons e maus, e delineia-se a paisagem humana... Ela, a Capoeira, é parte de nós mesmos. Não é apenas uma coisa que se utiliza e se joga fora. A Capoeira transcende as pessoas e se torna um sacramento de nossa vida abençoada ou maldita... Toda ela é um sacramento ou pode tornar-se, dependendo de nós e de nosso olhar. Se a olharmos humanamente, relacionando-nos em paz, deixando com que ela se torne igualmente importante para todos, sem egoísmos e se discórdias, realmente conseguiremos ser dignos da herança que recebemos de nossos antepassados e a estaremos difundindo às futuras gerações, caso contrário, falharemos, por não sermos dignos, da missão sacramental que recebemos daqueles que no passado dedicaram suas vidas à nossa geração.
É exatamente isto o que acreditamos. É exatamente isto o que rezamos. É exatamente isto o que nos move e nos alimenta. É exatamente este o nosso Axé. E é esta a negritude que militamos.
Prof. Sergio Luiz de Souza Vieira - Ph.D.
Presidente da Federação Internacional de Capoeira
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