jueves, 15 de julio de 2010

Negreiro chamado Tibúrcio dos Santos

Pierre Fatumbi Verger.

....................................No entanto, o ano de 1946 é que reservava a visita mais desejada: o Brasil. Eis um país pelo qual esperara por cinco anos, um local onde, como gostava de dizer, “não precisava fazer política”.
É uma outra América do Sul que descobre quando, influenciado por Roger Bastide, conhece a Bahia. Lá na “África brasiliense” morou no Hotel Chile, na casa da Vila América, vermelha como a cor de Xangô, deixando o tempo passar no ritmo diferente do calendário das festas, do batuque, do candomblé, da capoeira, da cozinha e da mestiçagem. O “aprendiz de etnólogo” descobria, então, um mundo mágico que unia a África que conhecera e o Brasil que aos poucos absorvia. Seu mergulho em águas negras é tão profundo que, em 1948, é introduzido no mundo do candomblé. Com seu cordão branco e vermelho, é recebido no terreiro do Axé Opô Afonjá, onde Mãe Senhora o proclama Ojuobá: “os olhos de Xangô; aquele que tudo enxerga e tudo sabe”.
Verger participa dos rituais como iniciado, e passa a estudar a perenidade dos cultos iorubá. Com um pé em cada continente, não tem outro remédio senão partir novamente para a África. Sua ida selava uma nova sorte, quase prevista nos búzios. Começávamos a perder o fotógrafo para ver nascer o pesquisador das religiões, o estudioso da escravidão e dos contatos entre África e Brasil. Foi em Daomé (atual República do Benim), em 1949, que Verger descobriu 112 cartas enviadas por um negreiro chamado Tibúrcio dos Santos, “o Alfaiate”, sobre o comércio clandestino de escravos entre Bahia e África durante o século XIX. Era só o começo de um trabalho que lhe custaria dezessete anos de investigação em museus e arquivos. O resultado é o livro Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos, publicado originalmente na França em 1968 (e no Brasil apenas em 1987) e que constitui um marco, até os dias de hoje, para os estudos sobre escravidão. Mas a obra também significava a comprovação de um diálogo entre África e o Brasil, que Verger aprendera a reconhecer no seu dia a dia. A pesquisa revelava a existência de um jogo de trocas no qual — apesar da perda de contato entre as duas comunidades — seus integrantes se tornaram, em termos culturais, “africanos do Brasil e brasileiros da África”. No entanto, o sucesso da tese, que defendida em 1966 na Sorbonne lhe deu o título de doutor, assim como a homenagem feita, anos mais tarde, pela Universidade Federal da Bahia, não deslumbrariam Verger. Para ele o mundo da academia continuava a ser representado pela metáfora de um papagaio sem cor. É por isso mesmo que na África Verger não perseguia apenas a rota dos navios negreiros. É no mistério da religião que Verger se fez adivinho, e nasceu Fatumbi — renascido pelo Ifá —, nome que o acompanhará pelo resto da vida. Essa nova iniciação também lhe dá o título de babalaô e o acesso ao conhecimento oral dos iorubás e à arte divinatória de Ifá. Dessa experiência resultam livros como Dieux d’Afrique (1954), Notes sur le culte des orisa et vodoum (1957) e Orixás, publicado no Brasil em 1981. A partir de então Verger desempenharia o papel intelectual, pessoal e emocional, de tradutor e mensageiro entre dois continentes.
http://www.jorgeamado.com.br/professores2/04.pdf

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