
Rodolfo Konder
Nascimento: 05/04/1938, Natal
Profissão: Jornalista e escritorProjeto: Herzog Hoje
P - Você falou da sinuca no Posto 6. O que mais você conta do Rio daquela época, Konder?
R - Bom, quando nós fomos pra Ipanema, Ipanema era um bairro que estava... Nós morávamos primeiro em Copacabana, mas isso bem meninos ainda. Aí fomos pra Ipanema, a casa dos meus avós era na Teixeira de Melo. Ipanema era um bairro que tava começando a se desenvolver, mas não tinha prédios, só tinha casas. E algumas ruas ainda eram de terra, não estavam asfaltadas. Ipanema era um... Às vezes, nós íamos pra praia e a praia, Leblon, Ipanema e Arpoador, estava deserta. É uma coisa absolutamente inconcebível. Totalmente deserta, éramos só nós na praia. E um pouco mais adiante, ali naquela região da Farme de Amoedo, aquela área até mais adiante, tinha uma academia de capoeira, do Sinhôzinho, que tinha dois filhos fortíssimos, o Cirandinha e o Pedregulho. E eles dominavam o bairro. O bairro de Ipanema era dominado pelos capoeiristas do Sinhôzinho. Inclusive o Sinhôzinho, já aos oitenta e tantos anos, pra mostrar que ainda era vigoroso, um dia parou uma carroça – havia muitas carroças nas ruas de Ipanema – e pra mostrar que ainda estava vigoroso, deu um soco na cabeça e matou o cavalo com um soco na cabeça. E os dois filhos dele brigavam muito. O Cirandinha depois morreu, numa briga, num apartamento de Copacabana foi jogado de uma janela. Mas eram fortíssimos. E o Pedregulho... O Pedregulho tem até uma história engraçada. E eu os via, mas sempre que eu os via eu atravessava a rua, porque eu tinha medo deles. Daí o Pedregulho tomou uma bebedeira e foi ao barbeiro, ao salão do Kim que era capoeirista também e amigo dele. E disse: “Kim, raspa minha cabeça zero”. O Kim raspou. Primeiro, o Kim resistiu: “Pedregulho, eu não vou fazer isso, porque você está bêbado e amanhã você fica bom da bebedeira e vai me dar uma surra”. Ele disse: “Se não raspar vai levar surra agora”. Aí o Kim raspou e levou a surra no dia seguinte. Mas então o Pedregulho ia pra a Visconde Pirajá, que era toda de paralelepípedos e ficava, tirava uma mesa do bar que tinha na esquina da Visconde de Pirajá, botava no trilho do bonde, sentava, tirava a boina e ficava ali sentado pra ver se alguém tinha coragem de olhar pra ele. E ninguém olhava. E o motorneiro vinha com o bonde, parava e ficava esperando até ele ter a disposição de sair do trilho do bonde, porque o cara era um gigante forte, decidido. Então, isso era um pouco Ipanema.
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