domingo, 28 de junio de 2009

Os velhos capoeiras ensinam pegando na mão

Os velhos capoeiras ensinam pegando na mão
The old capoeira teach holding hands

Pedro Rodolpho Jungers Abib
Doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), professor adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e capoeirista-discípulo do mestre João Pequeno de Pastinha. E-mail:
pedrabib@ufba.br
.........................O mestre de capoeira é também o mestre de muitas das manifestações de nossa cultura popular, também é aquele que sabe ocultar determinados conhecimentos considerados "essenciais" dentro da tradição por ele representada. São saberes ou conhecimentos que não podem ser disponibilizados a qualquer pessoa ou em qualquer momento, mas necessitam, para serem transmitidos, de uma certa preparação por parte da pessoa interessada, que inclui muitas vezes uma "iniciação" que faz parte da ritualidade característica daquele grupo.
"O mestre reserva segredos, mais (sic) não nega explicação", diz mestre Pastinha em seus manuscritos, conforme Ângelo Decânio (1996). Conhecido no meio da capoeira como "pulo do gato", esse conhecimento só é disponibilizado àqueles que demonstram amadurecimento e compromisso suficientes para poderem utilizá-lo em benefício da própria preservação da tradição. Essas estratégias são importantes no sentido de manter certa coesão em torno desses saberes e tradições, fundamentais em relação ao sentimento de pertencimento identitário e de transmissão da memória coletiva do grupo, que se constitui a partir dessas práticas. Pastinha utilizava freqüentemente em seus escritos o termo "mestrar", referindo-se ao ato de ensinar e transmitir os conhecimentos referentes à tradição da capoeira angola.
Tradicionalmente, como diz Muniz Sodré (2002), o mestre não ensinava o seu discípulo, pelo menos no sentido que a pedagogia ocidental nos habituou a entender o verbo ensinar. Ou seja, o mestre não verbalizava, nem conceituava o seu conhecimento para transmiti-lo metodicamente ao aluno. "Ele criava as condições de aprendizagem formando a roda de capoeira e assistindo a ela. Era um processo sem qualquer intelectualização, como no zen, em que se buscava um reflexo corporal, comandado não pelo cérebro, mas por alguma coisa resultante da sua integração com o corpo" (Sodré, 2002, p. 38).
Mestre Pastinha dizia, aos 92 anos de idade, pouco antes de morrer: "eu ainda tô aprendendo capoeira...". Essa paciência em deixar o tempo agir como escultor das qualidades de um bom capoeira ainda pode ser encontrada em alguns poucos grupos de capoeira angola, diferentemente da maioria dos grupos de capoeira regional, onde, em boa parte, a própria função de mestre tem se banalizado, pois é cada vez mais freqüente encontrarmos jovens capoeiras, na faixa de seus vinte ou trinta anos, se auto-intitulando mestres, com pouca experiência de vida e de capoeira, sem a mínima noção do que essa titulação o "ser mestre" significa.
Isso se dá em função de interesses em relação ao mercado consumidor de cultura que cresce a cada dia, no qual se inclui a capoeira e no qual o título de mestre é uma garantia de obtenção de espaços nesse concorrido "shopping cultural da modernidade". A capoeira angola também não está livre dessa influência, porém nota-se certa preocupação, talvez um pouco maior do que na capoeira regional, com esse tempo de chegar a ser mestre, embora já tenhamos muitos exemplos também no universo da capoeira angola que contradizem essa nossa análise.
Diz uma cantiga de capoeira que "só o tempo te faz mestre, não o diploma que comprou", e isso implica que o mestre de capoeira seja alguém que possua, além da capacidade e habilidade na prática do jogo, muita experiência de vida. O reconhecimento como mestre (tanto na capoeira, quanto na cultura popular em geral) se dá então naturalmente, por parte da comunidade da qual ele faz parte, por entender que foram preenchidos os atributos exigidos para tal função. O título de mestre só tem legitimidade quando atribuído pelo grupo social ao qual representa, que, em última instância, é quem delega autoridade às suas lideranças.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-32622006000100007&lng=es&nrm=iso

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